Em um ambiente global marcado por instabilidades políticas, conflitos comerciais, volatilidade de preços, incertezas relacionadas ao impacto da Inteligência Artificial na produtividade e pressões crescentes de ESG, o Procurement consolida sua transição de função operacional para eixo estratégico nas decisões críticas das organizações. Essa foi a tônica do encontro “Procurement em 2026: Economia, Inteligência Artificial e Decisão em Ambientes de Complexidade”, realizado em 24 de fevereiro, na sede da Live University, com condução de Felipe Gracias, economista, sócio e Head de Expansão da BPool, participação de André Foresti, estrategista, referência em inovação e fundador da TroubleMakers, e mediação de Alex Leite, Partner and Corporate Director da Live University.
Ao longo da apresentação, foram analisados dados de instituições como Bank of America (BofA), Banco do Brasil, FecomercioSP, KPMG, Deloitte e McKinsey, compondo um panorama que combina desaceleração econômica, divergência no ritmo de cortes de juros e avanço estrutural da IA nas áreas corporativas.
No Brasil, as projeções para 2026 apontam crescimento do PIB entre 1,7% (Banco do Brasil) e 2,0% (BofA), com inflação estimada entre 4,0% e 4,05%. Em relação à Selic, as estimativas apontam para queda gradual ao longo do ano, atingindo eventualmente entre 11,25% no cenário mais otimista e 12% em visão moderada. Já as projeções para o câmbio, sempre muito desafiadoras, ficam entre R$ 5,25 e R$ 5,50. O BofA elevou o Brasil para compra/overweight, citando principalmente os cortes relevantes de juros no horizonte, enquanto instituições locais mantêm postura mais cautelosa.
O cenário pode ser descrito como de “previsibilidade cautelosa”, no qual há maior clareza monetária, mas persistem riscos fiscais e pressões estruturais. Foi apontado que “entramos em 2026 com menor necessidade de estratégias excessivamente defensivas, mas ainda com disciplina rigorosa na alocação de capital. O custo do dinheiro segue relevante no primeiro semestre e a geração de caixa volta a ser o principal critério de qualidade corporativa”.
O material apresentado também destacou que a dívida pública bruta pode se aproximar de 84,8% do PIB, mantendo o risco fiscal no radar das empresas. Nesse contexto, recomendações estratégicas incluem foco na qualidade dos ativos, cautela com alavancagem, proteção cambial em períodos de maior volatilidade e atenção às mudanças tributárias.
Mais do que um diagnóstico macroeconômico, o encontro enfatizou o reposicionamento estrutural do Procurement. A função passa a concentrar três frentes prioritárias: proteção de valor, eficiência operacional e conexão com inovação.
“O Procurement impacta diretamente margens, resiliência e capacidade de resposta. Em ambientes complexos, ele deixa de ser suporte e passa a ser parte da formulação estratégica”, destacou Gracias.
A transformação digital foi apontada como vetor incontornável. A KPMG estima que entre 50% e 80% do trabalho atual de Source-to-Pay pode ser automatizado ou eliminado por meio de modelos de autoatendimento e IA generativa. Já a Deloitte indica que 72% das lideranças de Procurement priorizam a transformação digital. De acordo com a McKinsey (2024), a IA já altera de forma significativa os ciclos de sourcing, com aplicações que incluem análise de gastos, criação de RFPs, negociação contratual, otimização do Procure-to-Pay e monitoramento de riscos em tempo real.
Para André Foresti, o avanço da IA não elimina a necessidade de inteligência humana, pelo contrário, amplia o desafio das lideranças, uma vez que é necessário trabalhar junto às equipes para evoluir o pensamento crítico, aprofundar-se nos temas e, por vezes, subverter a lógica, para combater a crise cognitiva e com isso, compreender diferentes perspectivas e tomar melhores decisões em dupla com a tecnologia, o que ele chama de inteligência ampliada. Alex complementa: “A discussão não é substituição, é qualificação da decisão. A IA reduz assimetrias de informação, acelera análises e permite que o Procurement atue estrategicamente inclusive em categorias antes negligenciadas por falta de escala operacional.”
O encontro também abordou o avanço do chamado Agentic AI, descrito pela KPMG como a terceira fase do roadmap de maturidade, na qual agentes autônomos executam ações de sourcing, negociações e onboarding. Ao mesmo tempo, foi reforçada a necessidade de decisões auditáveis, governança robusta e mitigação de vieses “IA sem governança é risco. O futuro exige lógica transparente e validação humana”, pontuou Gracias.
Outro conceito discutido foi a democratização do trabalho especializado, associada à redução do custo marginal de atividades estratégicas com IA. Isso permite que categorias de cauda longa, como serviços de marketing e projetos especializados, passem a ser geridas com rigor estratégico, ampliando a conexão entre inovação e disciplina financeira.
A conclusão do encontro aponta para uma mudança estrutural: transformar o Procurement em uma estrutura orientada por dados e apoiada por IA não representa apenas avanço técnico, mas uma redefinição da forma como as organizações contratam, avaliam e gerenciam valor. “2026 não será um ano para decisões intuitivas nem para imobilismo defensivo. Será um ano para decisões fundamentadas, integrando contexto econômico, dados e tecnologia. As organizações que internalizarem essa lógica estarão mais preparadas para atravessar volatilidade sem perder competitividade”, finalizou Alex.